Salários devem se ajustar com moderação.
A geração de empregos formais na economia brasileira vem caindo de ritmo, conforme estatísticas do Ministério do Trabalho (em agosto, foram criados 190.446 empregos, 36,4% a menos que em igual mês do ano passado; em julho também já havia sido registrada uma redução). Neste período do ano, geralmente a indústria de transformação contrata mais, para atender as encomendas do comércio, mas não é o que vem ocorrendo. O mercado de trabalho já estaria sentindo os efeitos da desaceleração do crescimento da economia brasileira, embora a taxa de desemprego permaneça baixa para os padrões do país.
O desaquecimento provavelmente se refletirá nas negociações coletivas, de numerosas categorias profissionais, programadas para este segundo semestre. Uma das preocupações dos economistas era que essas negociações redundassem em elevados aumentos reais dos salários, o que seria mais um fator de pressão sobre a inflação nos próximos meses.
Reajustes salariais não são por si só de natureza inflacionária, se forem acompanhados de um aumento geral ou setorial de produtividade. Especialista no tema, José Pastore, professor da USP, observou, em recente artigo publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", que desde 2007 o aumento real do salário médio na economia brasileira foi de 11%, enquanto a produtividade avançou apenas 3%.
Na indústria de São Paulo, em 2010, o aumento real dos salários foi de 3,5%, e a produtividade evoluiu somente 0,1%. Entretanto, os metalúrgicos do ABC e do Vale do Paraíba (assim como os do Paraná) asseguraram aumentos reais razoáveis para seus salários e outros benefícios nas últimas negociações, graças a bons resultados das empresas do setor automobilístico.
Daqui para a frente, é possível que haja uma acomodação dos salários médios, em face da recuperação já alcançada. A economia precisa ganhar fôlego para manter uma satisfatória taxa de crescimento, com inflação sob controle e desemprego baixo. E um novo equilíbrio depende que os salários voltem a acompanhar a evolução da produtividade. Se ficarem acima, o resultado será mais inflação e a volta do desemprego. Muito depende, também, de investimentos, não só em tecnologia, mas na qualificação de recursos humanos. Mesmo com a redução do ritmo das novas contratações formais, o mercado brasileiro poderá continuar criando oportunidades. Quanto mais pessoas se qualificarem, mais ganhos de eficiência a economia obterá, e assim se pavimentará o ambiente para melhorias salariais, formando um ciclo virtuoso, em que todos usufruem do processo de desenvolvimento.
A qualificação profissional não se resume a treinamento. Se os trabalhadores não tiverem capacidade de aprendizado, perde-se grande parte do esforço de treinamento. Nesse processo é que se insere a melhora do sistema educacional, desde o ensino fundamental e a pré-escola.
Se há um segmento que se adaptou muito bem ao ambiente de estabilidade monetária, depois do lançamento do real, foi o da livre negociação salarial.
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