Belo Horizonte - Com a economia aquecida, profissionais não pensam duas vezes para mudar de empresa e salário não é único atrativo. Em 2010, 47,6% dos trabalhadores trocaram de emprego em MG
Foi-se o tempo em que trocar muito de emprego “manchava” a carteira de trabalho e que a estabilidade de anos na mesma empresa somava pontos a favor do profissional. A economia aquecida abriu as portas para que os trabalhadores experimentem novas oportunidades e deem adeus aos empregadores sem pensar duas vezes. Engana-se quem acha que salário maior é o único atrativo. Os profissionais, principalmente os mais jovens, estão em busca de participação nos projetos, empresas mais transparentes, menos burocráticas, com maior flexibilidade de horários e plano de cargos e salários.
No ano passado, 47,6% dos trabalhadores com emprego formal em Minas Gerais trocaram de emprego uma ou duas vezes. O índice, também conhecido como turnover no contexto de recursos humanos, se refere à relação entre admissões e demissões ou a taxa de substituição de trabalhadores antigos por novos de uma organização. Em 2004, a taxa de rotatividade de pessoal em Minas havia sido de 40,7%. “Os dados mostram que quase metade dos trabalhadores trocaram os vínculos de trabalho em 2010”, afirma Mário Rodarte, economista e professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Rodarte fez os cálculos da rotatividade dos trabalhadores com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados e da Relação Anual de Informações Sociais (Caged/Rais), do Ministério do Trabalho. Os números envolvem tanto os trabalhadores que trocaram de emprego por interesse próprio como os demitidos pelas empresas. No balanço final, no entanto, os dados mostram volume maior de contratações, o que mostra um cenário favorável para as pessoas trocarem de emprego por vontade própria. No ano passado, enquanto as admissões somaram 2,3 milhões de trabalhadores em Minas, os desligamentos somaram 2,07 milhões.
O troca-troca de empresas, que antes era característica forte das posições com menor qualificação, como atendimento de telemarketing, operários da construção civil e serviços gerais, hoje chega a trabalhadores qualificados de todas as áreas, com destaque para a tecnologia da informação, engenharia, logística, indústria automobilística, siderurgia e mineração. O levantamento do Caged mostrou que a rotatividade entre os trabalhadores com curso superior foi de 13,7% no ano passado, contra 10,4% em 2004.
O diretor comercial do Grupo Selpe, Hegel Botinha, afirma que atualmente é difícil citar setores pontuais que estejam sofrendo com o aumento da rotatividade no quadro de funcionários. “É um cenário generalizado. Tem acontecido até dentro da minha empresa de recrutamento”, conta. “E está se intensificando. Neste início de ano, o mercado está mais dinâmico, com muitas pessoas trocando de emprego. As empresas não estão acostumadas a lidar com isso”, acrescenta Botinha.
Ele observa que estão se tornando cada vez mais comuns casos de processos de seleção que, depois de finalizados, com a escolha do candidato definida, precisam ser reabertos por desistência do aprovado. “Recentemente, houve um caso em uma vaga de coordenador de logística. O salário oferecido pela empresa era de R$ 4,5 mil, mas o candidato pedia R$ 5,8 mil. A empresa aceitou e fechou o contrato”, conta. “No dia em que o profissional deveria começar, não compareceu. Ele já estava negociando com outra empresa em São Paulo”, detalha.
Assédio
O analista de sistema Cláudio Fernando Pinto, de 29 anos, já trabalhou em oito empresas. Ele está pela segunda vez na Aorta, empresa de aplicativos móveis.
Desde que voltou, há quatro meses, recebeu duas propostas de trabalho de outras companhias. “A experiência em outras empresas aumentou o meu leque de conhecimento e melhorou minha forma de trabalhar, abordar os clientes e resolver conflitos”, diz. Entretanto, reconhece que a estabilidade ajuda a focar mais o objetivo. “Voltei para a empresa porque participo de todas as etapas do projeto. Desde a concepção até a entrega. E os processos são mais ágeis e menos burocráticos do que em fábricas de softwares maiores, o que é mais prazeroso”.
Jovens se arriscam mais
Os profissionais jovens são os que mais se arriscam a trocar de empresa. No ano passado, os índices de rotatividade em Minas foram maiores entre os jovens com idade de 18 a 24 anos (82,8%), seguido dos de 25 a 29 anos (56,3%) e dos de 30 a 39 anos (43,2%), segundo o levantamento do Caged . Em todas essas faixas etárias, a taxa de turnover está bem acima da registrada em 2004, que foi de 68,1%, 48,5% e 34,6%, respectivamente (veja quadro). “Quando o mercado de trabalho estava em crise, as empresas fechavam as portas para os novos profissionais e essa taxa de rotatividade tendia a ficar menor. Com o mercado aquecido, as pessoas sentem mais disposição para tentar novas oportunidades”, explica o economista Mário Rodarte.
Ao avaliar os currículos dos profissionais, a sócia-diretora da Veli Soluções em Recursos Humanos, Lizete Araújo, ressalta que o critério de seleção de pessoal mudou. “Há alguns anos, o fato de a pessoa permanecer por muito tempo em uma empresa era sinal de estabilidade. Hoje, temos que avaliar os motivos que levaram a pessoa a mudar de emprego e a qualidade do serviço prestado”, observa.
Os jovens são os mais motivados por mudança, na avaliação de Lizete. “Eles têm interesse em desenvolver e implantar o projeto, mas nem sempre querem entrar para a rotina de gestão e manutenção”, ressalta. Segundo ela, cerca de 50% dos currículos que estão nos sites de empregos são de pessoas empregadas. “Não estão necessariamente insatisfeitos, mas querem estar numa vitrine”, ressalta.
David Braga, gerente de negócios da Dasein Executive Search, explica que a chamada geração Y, com idade de 18 a 30 anos, troca mais fácil de emprego. “O compromisso é menor nessa faixa etária. Por outro lado, são profissionais com alta performance, que cobram transparência das organizações e mais ações éticas”, diz.
Em busca de crescimento profissional
O gerente de projetos Daniel Veloso Magnino, de 26 anos, já trocou cinco vezes de emprego na sua área. Atualmente, trabalha na BHS, onde está pela segunda vez. Magnino é formado em gestão de projetos, com MBA na área. “Busquei crescimento profissional e atingir uma posição dentro dos meus estudos. Amadureci com as oportunidades, mas me deparei com promessas que não foram cumpridas. Todas as vezes que não considerei o lado humano, errei. Quando olhei só a oportunidade de negócio e a questão financeira, tive insucesso”, diz.
Na troca de empresas, ele conta que houve momentos que precisou dar um passo para trás para, depois, voltar a dar outro para frente. “Quando não dá certo, temos o ônus de recomeçar do zero. Nem sempre o momento é correto para fazer a troca. É importante que você esteja preparado para a mudança e conheça a estrutura da empresa onde vai trabalhar. E algumas perguntas só são respondidas com a experiência”, diz. No cargo de gerente de projetos, Magnino considera ter atingido uma posição de gestão e lado financeiro satisfatórios.
Já Míriam de Carvalho, de 30, é cozinheira do restaurante Vecchio Sogno pela segunda vez. Ela já trabalhou em sete restaurantes. “A vantagem é que adquiri um pouco mais de conhecimento. Nenhum lugar é igual ao outro, então recebemos mais informações. A chance de crescimento também é maior, pois passamos a ter mais experiência”, diz. Ela não vê problemas na troca de emprego. “Se troco de emprego e estou na mesma profissão, é porque gosto. Na minha área é preciso gostar, pois é um trabalho de segunda a segunda. O mercado é bem aquecido, só fica desempregado quem quer”, ressalta.
Edelson da Silva Bitencourt deixou o emprego de motorista de caminhão de concreto para ser supervisor de campo na construção civil. “A chance de crescimento é maior. E na nova empresa eles olham mais o lado do funcionário”, diz. Ele conta que já recebeu algumas propostas de emprego. “Mas continuo na mesma empresa porque vejo um futuro lá”, diz. (Geórgea Choucair e Paula Takahashi).