Portugal Telecom negocia com fundos de pensão entrada na tele brasileira; participação seria minoritária
Negócio deve ser concluído em setembro, quando portugueses venderão sua fatia na Vivo à Telefónica
A PT (Portugal Telecom) planeja investir cerca de R$ 8 bilhões para entrar na Oi. O acordo de intenções foi definido ontem e será avaliado hoje pelo conselho de administração da PT, em Lisboa. A Folha apurou que, mesmo investindo tanto, a PT será acionista minoritária, possivelmente com 23% da Oi.
No controle da operadora continuarão o grupo La Fonte (do empresário Carlos Jereissati) e a Andrade Gutierrez, que hoje têm 19,3% de participação cada um. Também permanecerá o Atlântico, fundo de pensão dos funcionários da Oi, atualmente com 11,49% de participação.
A PT deverá entrar como sócia da Oi tanto na Telemar Norte Leste, um dos braços da holding (Telemar Participações), como na Tele Norte Leste -nas duas, teria 21%.
Os 2% restantes seriam a participação da PT na Telemar Participações, a holding que controla as outras duas empresas.
A compra dessas ações ocorrerá após um aumento de capital da PT na Oi. Por ele, os portugueses comprarão as novas ações em posse dos fundos de pensão estatais (Previ, dos funcionários do BB; Petros, da Petrobras; e Funcef, da Caixa) e os 2% da holding, diluindo a participação de cada um dos sócios.
Mesmo assim, Andrade Gutierrez, La Fonte e Atlântico manterão o controle.
A Folha apurou que estaria prevista a divulgação de um protocolo de intenções na sexta-feira, mas pode haver mudança de planos para viabilizar um anúncio conjunto entre Oi, PT e Telefónica no máximo no início de setembro, quando estarão certos os detalhes da operação.
ANTECEDENTES
A entrada da Oi na PT é uma negociação que avançou após a oferta da Telefónica pela parcela da PT na Vivo, em maio passado. Ambas são sócias na operadora brasileira de celular com 30% de participação cada uma.
Em maio, os espanhóis fizeram uma proposta para adquirir o controle da Vivo. Na ocasião, o primeiro-ministro português, José Sócrates, perguntou a Lula, durante visita oficial ao Brasil, quais seriam as chances de a PT entrar na Oi para criarem uma tele luso-brasileira.
A Folha revelou que Sócrates disse ainda que usaria o poder de veto de Portugal à venda da Vivo até que encontrassem uma solução para a PT no Brasil.
Lula disse que haveria barreiras políticas. Isso porque o governo alterou as regras do setor para permitir à Oi comprar a Brasil Telecom por R$ 5,8 bilhões, com o argumento de que o país precisaria de uma supertele para competir com estrangeiros.
Agora, com a solução praticamente acertada, a PT deverá retornar às negociações com a Telefónica, que não entrará mais na Justiça para dissolver a sociedade com a PT na Vivo -forma encontrada pelos espanhóis para pressionar os portugueses a definirem um "plano B".
MAIS PELA VIVO
Com o fechamento de um acordo entre PT e Oi, o governo português deverá derrubar o veto à venda da Vivo à Telefónica. Em 16 de julho, os espanhóis retiraram sua última oferta de € 7,15 bilhões pelos 30% da PT na Vivo.
Com a retomada das negociações, a Telefónica deverá para € 7,5 bilhões pela Vivo. Esse negócio deverá ser finalizado com o da PT e Oi para que sejam enviados juntos para a Agência Nacional de Telecomunicações, que precisa aprová-los.
Procurados, Oi, PT, Telefónica e Previ não quiseram se pronunciar.
Com portugueses, operadora brasileira ganha reforço de caixa
O investimento de até R$ 8 bilhões que a PT (Portugal Telecom) pretende fazer na Oi pode representar uma virada na tele brasileira.
Atualmente, os papéis da Oi perderam quase metade de seu valor de mercado porque a operadora não conseguiu concluir o processo de troca de ações da BrT (Brasil Telecom) pelas da "nova Oi" (formada por BrT e Oi).
A Oi comprou a BrT em janeiro de 2009 e, naquela ocasião, anunciou sinergias (economias de custo) de até 30% após a junção.
Em meados de janeiro deste ano, a Oi anunciou a existência de ações judiciais inesperadas e, por isso, teve de destinar R$ 1,3 bilhão em provisionamento para fazer frente aos processos. A partir daí, suas ações na Bovespa começaram a cair.
Resultado: os acionistas da BrT que ainda não tinham trocado seus papéis antigos pelos da "nova Oi" não aceitaram receber menos e o processo está paralisado.
A entrada da PT na Oi trará reforço de caixa à empresa e ampliará sua capacidade de investimento.
Esse negócio contou com a interferência do governo federal, que, em 2008, mudou a lei que rege o setor para permitir a compra da BrT pela Oi. A nova ajuda do governo à Oi chega em um momento em que grupos estrangeiros estão se consolidando no Brasil para fazer frente a uma nova fase de investimentos que exigirá mais fôlego financeiro (JULIO WIZIACK e TONI SCIARRETTA, colaborou ELVIRA LOBATO - Folha de S.Paulo)